Tudo começou logo cedinho, quando o meu despertador tocou à 1h10m. Já o Manel, o Pedro e a Mariana tinham tratado de deixar tudo arrumado perto da porta antes de se deitarem para que a saída fosse o mais célere possível.
Choveu, e bem, durante os 25 minutos que demorámos de carro para Folkestone. Chegámos ao porto pelas 02h e pouco e já lá estava o Fred, a Observadora, Anne Sloane, e outro Observador que era para seguir com outro nadador (que acabou por não aparecer). O Hugo e o Pedro da TVI chegaram nessa altura também.
O Fred perguntou-nos se queriamos ir nessa noite. AS previsões indicavam que o vento poderia levantar à tarde, mas a Mariana interrompeu-o dizendo que por essa altura esperávamos estar despachados. A verdade é que as previsões na Mancha nunca são muito fiáveis, mesmo a uma distância só de meio dia. Tinhamos de fazer uma decisão e tinhamos de viver com a decisão que fizessemos.
Decidimos ir. Entrámos todos para o barco e quando chegámos perto da praia de Samphire Hoe o Fred fez sinal para eu começar com os preparativos. Todos estavam animados e bem dispostos quando atirei-me à agua e nadei os 100m para a praia (regra imprescíndivel do Canal da Mancha é começar em terra e acabar em terra), fiquei uns minutos de costas para o barco, rezei uma Avé Maria, dei o sinal de início de prova e atirei-me ao mar, ainda os relampagos da tempestade iluminavam esporadicamente as falésias claras de Dover. Eram 03h58m. Noite cerrada.
Às 04.45 tive o meu primeiro abastecimento e já se notavam abertas de céu mais claro entre as nuvens. Na próxima paragem, 30m mais tarde, já era dia e pude "despir" os light sticks que levava atados à cintura.
Eram cerca das 8h00 quando numa paragem me disseram que tínhamos ultrapassado outro nadador e que um terceiro se avistava um pouco mais ao largo. Vim a saber mais tarde que um destes acabou por desistir, o outro ainda nadava quando nós voltámos para Inglaterra mas não sei se terá completado a prova - estavam ambos com pilotos da outra associação.
A certa altura enjoei bastante e por alguma razão não conseguia sequer pensar nas barras energéticas que normalmente utilizo para "descansar" do gel. Acabei por me alimentar sempre à base do gel, com água ou goldrink (bebida isotónica), chá e ocasionalmente banana e frutos secos.
A tempestade desapareceu com a luz do dia. O céu encobria de vez em quando e caía uma chuvinha, mas por volta das 9h da manhã caiu uma autêntica carga de água. Ficou tal maneira reduzida a visibilidade que temi que o fred me quisesse tirar da água. Felizmente este velho lobo do mar conhece tão bem o temperamento volátil da Mancha que isso não o assustou.
Várias vezes cruzei-me com barcos que me faziam sentir fisicamente muito pequeno embora aumentassem o sentido da grandeza deste desafio. Os ferries passavam a mil à hora, mais lento mas mais bonito foi o Navio Escola Holandês que passou a poucas dezenas de metros. De todos estes só tive de dar passagem a um último no final do segundo corredor de tráfego, mais perto de França, um cargueiro "roll on-roll off" que parecia uma torre de prédios flutuante! Meteu respeito!
A chegada a França, frustrante porque só consegui ver terra na última hora do trajecto, foi emocionante. A corrente da maré a vazar puxava-me para sul e tive de redobrar os esforços para certificar que mantinha o rumo e não falhava o Cap Gris Nez, senão teria de nadar pelo menos mais uma hora até conseguir por o pé em terra.
Os golfinhos (mais tarde identificados como Harbour Porpoises) não os vi mas percebi pela a excitação a bordo que algo fora do normal estava a acontecer. A Mariana depois escreveu no quadro o recado e fiquei muito contente por sentir que até aqui tinham aparecido, reforçando o meu sentido de dever como Embaixador do Ano do Golfinho, de divulgar a importância da conservação e protecção destas maravilhosas criaturas.
O "Samallen" acabou por ficar a cerca de 500m da costa Francesa, o Fred e o Pedro (cameraman da TVI) acompanharam-me nas últimas braçadas a terra num bote a remos, mas mesmo assim a corrente impediu-os de se aproximarem muito.
Não existem palavras para descrever a emoção que foi sentir aquelas rochas debaixo dos meus pés! Levantei-me mas ainda tinha água pela cintura. Trepei para um segundo calhau e entre adrenalina e frio nem senti os cortes na perna e palma da mão. Consegui. Cheguei.
Agora tinha de voltar. Mais um mergulho, mais umas braçadas. O Fred parecia tão atrapalhado com a corrente no bote que acabei por voltar a nado para o "Samallen". Ao chegar perto icei a bandeira que esvoaçava no vento que entretanto tinha levantado e subi para o barco, para os braços da minha equipa.
A volta, já todos sabem, foi demorada devido a uma avaria sofrida logo no início da minha prova. Não foi a viagem de barco mais agradavel, entre enjoos e frio ao fim do dia, nem a chegada a Folkestone foi a ideal (a maré estava a vazar de tal forma que nem conseguimos chegar às escadas do porto no bote e tivemos de descalçar e ir a pé naquele lodo nojento!). Mas não interessa. Foi a minha chegada, e foi assim.