Meu muito querido e adorado Miguel
Tem sido assim que tenho começado todas as cartas que escrevo a cada um dos netos no dia em que é baptizado. Também acabas de ter o teu baptismo. Um outro. O de fogo: depois dos exercícios e treinos, a batalha. Que ganhaste.
Devias ter sido recebido em França com música de Claude-Achille Debussy, se possível com a peça a que ele chamou "Diálogo do Vento e do Mar", e, de regresso a Inglaterra com os acordes de uma das marchas de "Pompa e Circunstância" de Edward Elgar.
Amanhã, em Lisboa, deviam estar no aeroporto todas as chamadas Forças Vivas da Nação, que alem de te darem a medalha de Mérito Desportivo te deveriam dar a Torre e Espada, de Valor, Lealdade e Mérito, a mais alta condecoração Portuguesa, que só se deve dar a um verdadeiro Herói, e, claro, com o Hino Nacional em fundo. Ou, como apaixonado que és por música barroca, talvez uma tocata para cravo, do português Carlos Seixas, e uma tocata, porque é uma das formas musicais que deve ser interpretada por um só músico, já que também foi sozinho que ganhaste a tua batalha.
A dar chutos numa bola, há milhares pelo mundo fora, centenas em Portugal. Mas tu fizeste o que muito poucos fazem no mundo, e, em Portugal, só um:TU.
E só espero que os nossos que estão nas Olimpíadas, saibam de ti e isso os faça redobrar as forças para também ajudarem a tornar Portugal, Maior.
Mas também sei, como teu Pai, que embora me possa apetecer pedir o Mundo para o meu Filho, o meu Filho é suficientemente Grande e Humilde para não querer nada disso e lhe bastar o Amor de Deus e o Carinho e o Amor de todos nós que também o amamos tanto. Haverá medalha maior que a de ter no peito a da "Ordem do Amor"? Sabemos, na nossa família, que não. E todos nós sabemos que foi por Amor que venceste e te venceste.
Sei que duas Associações recebem contributos teus, pelo esforço que fizeste. Obrigado meu Filho por saberes dar, por te saberes dar, e, tal como o poeta Carlos Queiroz pergunta no começo de um dos seus poemas, "Menino, queres ser meu Mestre?", também eu faço a mesma pergunta, disposto como estou a continuar a aprender contigo, como fiel admirador e discípulo.
Continua a ser o Homem que tens sido, porque como alguém disse "primeiro sê Homem e depois sê Anjo".
E como na letra de um um fado, "e se não fosse pecado, queria-te mais do que a Deus".
Mil beijos, meu Querido
Pai
10 de agosto de 2008
8 de agosto de 2008
Após a Mancha
Ao final de um dia de muito descanso cá estou eu para vos dar o meu relato pessoal do dia 7 de Agosto 2008.



Tudo começou logo cedinho, quando o meu despertador tocou à 1h10m. Já o Manel, o Pedro e a Mariana tinham tratado de deixar tudo arrumado perto da porta antes de se deitarem para que a saída fosse o mais célere possível.
Choveu, e bem, durante os 25 minutos que demorámos de carro para Folkestone. Chegámos ao porto pelas 02h e pouco e já lá estava o Fred, a Observadora, Anne Sloane, e outro Observador que era para seguir com outro nadador (que acabou por não aparecer). O Hugo e o Pedro da TVI chegaram nessa altura também.
O Fred perguntou-nos se queriamos ir nessa noite. AS previsões indicavam que o vento poderia levantar à tarde, mas a Mariana interrompeu-o dizendo que por essa altura esperávamos estar despachados. A verdade é que as previsões na Mancha nunca são muito fiáveis, mesmo a uma distância só de meio dia. Tinhamos de fazer uma decisão e tinhamos de viver com a decisão que fizessemos.
Decidimos ir. Entrámos todos para o barco e quando chegámos perto da praia de Samphire Hoe o Fred fez sinal para eu começar com os preparativos. Todos estavam animados e bem dispostos quando atirei-me à agua e nadei os 100m para a praia (regra imprescíndivel do Canal da Mancha é começar em terra e acabar em terra), fiquei uns minutos de costas para o barco, rezei uma Avé Maria, dei o sinal de início de prova e atirei-me ao mar, ainda os relampagos da tempestade iluminavam esporadicamente as falésias claras de Dover. Eram 03h58m. Noite cerrada.
Às 04.45 tive o meu primeiro abastecimento e já se notavam abertas de céu mais claro entre as nuvens. Na próxima paragem, 30m mais tarde, já era dia e pude "despir" os light sticks que levava atados à cintura.
Eram cerca das 8h00 quando numa paragem me disseram que tínhamos ultrapassado outro nadador e que um terceiro se avistava um pouco mais ao largo. Vim a saber mais tarde que um destes acabou por desistir, o outro ainda nadava quando nós voltámos para Inglaterra mas não sei se terá completado a prova - estavam ambos com pilotos da outra associação.
A certa altura enjoei bastante e por alguma razão não conseguia sequer pensar nas barras energéticas que normalmente utilizo para "descansar" do gel. Acabei por me alimentar sempre à base do gel, com água ou goldrink (bebida isotónica), chá e ocasionalmente banana e frutos secos.
A tempestade desapareceu com a luz do dia. O céu encobria de vez em quando e caía uma chuvinha, mas por volta das 9h da manhã caiu uma autêntica carga de água. Ficou tal maneira reduzida a visibilidade que temi que o fred me quisesse tirar da água. Felizmente este velho lobo do mar conhece tão bem o temperamento volátil da Mancha que isso não o assustou.
Várias vezes cruzei-me com barcos que me faziam sentir fisicamente muito pequeno embora aumentassem o sentido da grandeza deste desafio. Os ferries passavam a mil à hora, mais lento mas mais bonito foi o Navio Escola Holandês que passou a poucas dezenas de metros. De todos estes só tive de dar passagem a um último no final do segundo corredor de tráfego, mais perto de França, um cargueiro "roll on-roll off" que parecia uma torre de prédios flutuante! Meteu respeito!
A chegada a França, frustrante porque só consegui ver terra na última hora do trajecto, foi emocionante. A corrente da maré a vazar puxava-me para sul e tive de redobrar os esforços para certificar que mantinha o rumo e não falhava o Cap Gris Nez, senão teria de nadar pelo menos mais uma hora até conseguir por o pé em terra.
Os golfinhos (mais tarde identificados como Harbour Porpoises) não os vi mas percebi pela a excitação a bordo que algo fora do normal estava a acontecer. A Mariana depois escreveu no quadro o recado e fiquei muito contente por sentir que até aqui tinham aparecido, reforçando o meu sentido de dever como Embaixador do Ano do Golfinho, de divulgar a importância da conservação e protecção destas maravilhosas criaturas.
O "Samallen" acabou por ficar a cerca de 500m da costa Francesa, o Fred e o Pedro (cameraman da TVI) acompanharam-me nas últimas braçadas a terra num bote a remos, mas mesmo assim a corrente impediu-os de se aproximarem muito.
Não existem palavras para descrever a emoção que foi sentir aquelas rochas debaixo dos meus pés! Levantei-me mas ainda tinha água pela cintura. Trepei para um segundo calhau e entre adrenalina e frio nem senti os cortes na perna e palma da mão. Consegui. Cheguei.
Agora tinha de voltar. Mais um mergulho, mais umas braçadas. O Fred parecia tão atrapalhado com a corrente no bote que acabei por voltar a nado para o "Samallen". Ao chegar perto icei a bandeira que esvoaçava no vento que entretanto tinha levantado e subi para o barco, para os braços da minha equipa.
A volta, já todos sabem, foi demorada devido a uma avaria sofrida logo no início da minha prova. Não foi a viagem de barco mais agradavel, entre enjoos e frio ao fim do dia, nem a chegada a Folkestone foi a ideal (a maré estava a vazar de tal forma que nem conseguimos chegar às escadas do porto no bote e tivemos de descalçar e ir a pé naquele lodo nojento!). Mas não interessa. Foi a minha chegada, e foi assim.
7 de agosto de 2008
Mission Accomplished
Samphire Hoe - Cap Gris-Nez: 9h30m
Right now that and this photo are all we have the energy to say. Let me have a shower and a chocolate and I will come return to the keyboard to share a few moments with all of you!
Before I go a HUGE thank you to everyone. The strength of your support carried him through the weaker moments of greatest exhaustion. This achievment is yours as well.
Atrasos e avarias
Fosse a tecnologia tão fiável quanto o nosso Miguel, e o nosso herói mais a sua equipa de apoio já estariam no conforto do Pub, a descansar e a recompor as energias.
Mas o barco avariou, e por isso só chegaram a Inglaterra perto das 21h, para desespero de todos.
Certamente o Miguel e a Mariana poderão dar notícias pessoalmente muito em breve.
Mas o barco avariou, e por isso só chegaram a Inglaterra perto das 21h, para desespero de todos.
Certamente o Miguel e a Mariana poderão dar notícias pessoalmente muito em breve.
Imprensa
A notícia que fiz para a Renascença está aqui.
Na barra da direita dessa página encontrarão links para notícias anteriores, sigam para ouvir os comentários do Miguel antes de partir. Nesta notícia temos os comentários dele à chegada.
A mesma notícia, mais completa, sai no Página 1 ao fim do dia de hoje (www.pagina1.pt)
Sei que o Miguel falou para vários órgãos de imprensa, por isso fiquem atentos.
A TVI acompanhou o percurso todo e esperamos que saia uma peça no telejornal das 20h
Na barra da direita dessa página encontrarão links para notícias anteriores, sigam para ouvir os comentários do Miguel antes de partir. Nesta notícia temos os comentários dele à chegada.
A mesma notícia, mais completa, sai no Página 1 ao fim do dia de hoje (www.pagina1.pt)
Sei que o Miguel falou para vários órgãos de imprensa, por isso fiquem atentos.
A TVI acompanhou o percurso todo e esperamos que saia uma peça no telejornal das 20h
CHEGOU! HE'S ARRIVED!
9h e 30m foi o tempo que o Miguel precisou para completar a travessia.
Foi o melhor tempo do ano até agora, e meia hora menos do que o melhor que ele esperava conseguir.
Parabéns Miguel! Orgulhas-nos a todos!
Nine and a half hours. That's a record for 2008, and blows the Portuguese record out of the water!
Congratulations Miguel, we are all very proud!
Filipe
(P.S. Obrigado a todos os que estão a deixar comentários. Como estes são moderados, é preciso vir ao blogger permitir a sua publicação, o que não posso estar sempre a fazer. Compreendam, por isso, que possa haver algum atraso para eles aparecerem on-line.)
Foi o melhor tempo do ano até agora, e meia hora menos do que o melhor que ele esperava conseguir.
Parabéns Miguel! Orgulhas-nos a todos!
Nine and a half hours. That's a record for 2008, and blows the Portuguese record out of the water!
Congratulations Miguel, we are all very proud!
Filipe
(P.S. Obrigado a todos os que estão a deixar comentários. Como estes são moderados, é preciso vir ao blogger permitir a sua publicação, o que não posso estar sempre a fazer. Compreendam, por isso, que possa haver algum atraso para eles aparecerem on-line.)
Mais hora menos hora...
E o Miguel estará em França.
São estas as últimas indicações, vindas directamente do barco de apoio, onde já se vomitou um total de 9 vezes, pelo que me apercebi.
Se continuar a este ritmo, o Miguel baterá o objectivo que ele próprio traçou de 10 horas. Essa hipótese está a entusiasmá-lo e dar-lhe força para continuar.
Força Arrobas!
Just about an hour to go!
If things keep going as planned, Miguel will beat the 10hr goal he set for himself before travelling to England. This news is giving him the strength he needs to keep going even harder.
Mariana says the landscape is perfectly visible and one can almost smell the onions...
Maybe the smell of onions will keep her from throwing up a 5th time...
São estas as últimas indicações, vindas directamente do barco de apoio, onde já se vomitou um total de 9 vezes, pelo que me apercebi.
Se continuar a este ritmo, o Miguel baterá o objectivo que ele próprio traçou de 10 horas. Essa hipótese está a entusiasmá-lo e dar-lhe força para continuar.
Força Arrobas!
Just about an hour to go!
If things keep going as planned, Miguel will beat the 10hr goal he set for himself before travelling to England. This news is giving him the strength he needs to keep going even harder.
Mariana says the landscape is perfectly visible and one can almost smell the onions...
Maybe the smell of onions will keep her from throwing up a 5th time...
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