2 de setembro de 2008

Regresso ao Blog!

Olá!
Quem achava que o blog tinha ficado pela Mancha vimos avisar que estava enganado! Isto é para continuar!! Após um interregno de cerca de 15 dias muito cheios esperamos agora ir actualizando com mais regularidade. Foi mesmo preciso aquele tempinho para reagrupar, dar tempo à família e aos amigos, gozar os nossos pequeninos neste final de férias escolares e ainda conseguir dar resposta a alguns convites simpáticos que surgem nesta maré pós Mancha.
Sem qualquer ordem cronológica ou de importância (os meus dedos limitam-se a teclar a lista de ideais desordenadas à medida que surgem na minha massa cinzenta) aqui vai um breve resumo do que foi o nosso Agosto desde que partimos de Inglaterra. Pois, porque isto de ser casada com um "néo-Celebrity" tem muito que se lhe diga!!
Começou logo no avião. A nossa querida Claire aproveitou para fazer aquilo que eu secretamente desejava fazer. Passou um recadinho a um dos assistentes de bordo e passado um bocado o Comandante lá se apresentou com o seguinte recado:

"Ladies and gentlemen this is your Captain speaking. We are now at 33.000 feet and have just flown over the English Channel. It took us about 10min to cross and normally I wouldn't go into this much detail but we have a very special passenger on board today. Seated in seat 22C is Mr. Miguel Arrobas who last Thursday became the second Portuguese to swim the Channel and holds the fastest time this year at 9 1/2 hours. So please give him a round of applause!"

O Miguel ficou roxo, num misto de contente e envergonhado. Eu, como boa Avilleza que sou, fiquei cheia de lágrimas nos olhos!

Chegámos a Lisboa e ainda pediram que o Miguel se identificasse para sermos escoltados pela via rápida do controlo de passaportes. Foi muito simpático (isto organizado pelo sempre presente Zé (Thorpe) Correia) mas acabámos por demorar ainda um bocado na recolha de bagagem à espera das mochilas. E quando saímos... claro que tive de fazer um esforço enorme para conter as lágrimas novamente!! Uma faixa enorme anunciava o regresso do herói, os nossos três macaquinhos com t-shirts iguais (feitas pela prima Isabel!) alusivas à Mancha (e Gibraltar!) os nossos pais, irmãos, tios, alguns primos, amigos esperados e inesperados! Fantástico!!
Seguimos para casa dos meus Pais no Linhó para o brinde ao conquistador. Lá estavam ainda mais tios e primos, incluindo os recém chegados de Hong Kong com o nosso novo sobrinho!

Uns discursos, elogios, agradecimentos, mas sobretudo aquela enorme alegria que se gera por estarmos todos juntos que quando é aliada a uma razão concreta para nos unirmos, melhor, senão celebra-se simplesmente os laços que nos unem!
Jantamos com os Pais do Miguel e finalmente fomos para a nossa casa, com os nossos filhos. Só Nós, novamente.

O Miguel tirou férias essa semana. O tempo não esteve especialmente bom mas lá conseguimos picar o ponto na Praia Grande, ver os amigos e concretizar aquelas promessas de há meses de "Depois da Mancha, aí podemos jantar/ estar com calma/ fazer programas".

Percebi mesmo que neste último ano a nossa vida tinha sido marcada pela necessidade de separar aquilo que era necessário, inadiável e vital de tudo o resto que seria concretizado "depois da Mancha". Felizmente os nossos queridos amigos sempre apoiaram e pacientemente esperaram e agora temos tido tempo. E não há melhor que partilhar esse tempo com estes queridos amigos!

Entretanto houve convites. O Miguel lá deu umas entrevistas, voltou ao Você na TV com o Goucha. Foi convidado para comentar ambas as provas de 10km natação de águas abertas dos Jogos Olímpicos e numa dessa noites aproveitaram para pedir a presença dele também nas "Noites Olímpicas" onde se reuniu com o Paulo Catarro, Marco Fortes (lançamento de peso nestes JO), Odete Santos, e Miguel Maia (Jogador Olímpico de Vólei) para comentar as últimas notícias dos JO. (Assim que descobrir os links tratarei de os juntar aqui ao blog).
Recentemente surgiu também um convite feito ao casal Arrobas para ir ao programa do Pedro Rolo Duarte na Antena 1. Foi a primeira vez que nos convidaram os dois. O Miguel já está tão batido nisto que parece que está super à vontade. Eu estava preocupada se mandasse uma das minhas calinadas luso-inglesas ou se me perdesse completamente a meio de um raciocínio, mas de facto foi muito fácil conversar com o Pedro - foi isso mesmo, uma conversa a três que foi gravada e depois passou no ar no Domingo dia 31 (sigam o link aqui ou na barra lateral para ouvirem a gravação do programa).

E rapidamente chegámos a hoje. Consegui aproveitar uma horinha enquanto mudaram os pneus do meu carro para vos por a par. O Miguel tem muitas mais coisas para contar, curiosidades, propostas e sugestões que nos têm surgido. Deixo que ele vos conte.

Até breve!!

18 de agosto de 2008

E agora o filme...

Olá!
A pedido de muitos estamos a tentar adicionar alguns dos clips de noticiários que apareceram na televisão aqui ao blog. Tenham paciencia porque nem eu nem o Miguel somos muito dextros nisto das novas tecnologias!!

Podem encontrar mais fotografias e links para noticiários de aventuras anteriores no site www.openwaterportugal.com

15 de agosto de 2008

Parabéns Nuno!!!! Conseguiste!!!


Olá a todos,

O Nuno chegou à Costa Francesa ao fim de umas sofridas 11 horas e 36 minutos (ainda sujeito a confrmação oficial).

Todo o caminho muito enjoado e a vomitar de tempos a tempos, o Nuno bem sofreu para conseguir concretizar este sonho, que é não só dele mas meu também e de todos nós.

Estive a noite toda a acompanhar pelo blog e agora de manhã falei com o Pascoal. Desde as 7 da manhã que não conseguia dormir mais e fiquei a saber que estava muito perto mas que não ter nada no estomago dificultou imenso esta travessia.

Sabia que haviamos os dois de conseguir esta aventura.

Parabéns Nuno por teres chegado mas sobretudo por teres lutado contra as tuas próprias forças ao longo de tanto tempo.

Agora vou poder passar pelas brazas mais um bocadinho.

Um abraço a todos

Miguel Arrobas


14 de agosto de 2008

Todos a torcer pelo Nuno

Chegou a vez do Nuno.
Pois parece que a saída para o mar está prevista pelas 22horas. Isso quer dizer que terá de nadar umas boas horas às escuras durante a noite, mais do que aquelas que eu tive de fazer durante a minha travessia. Mas estou muito certo de que isso não o vai fazer abrandar na sua conquista do Canal da Mancha. Cá ficamos todos a torcer e que tudo corra bem e que de manhã a começar o dia tenhamos boas noticias.
Um abraço
De todos os Arrobas

O regresso da delícia do mar!

Bom dia!
O Miguel vai aparecer no programa "Você na TV" hoje de manhã! Pois é o Goucha não podia perder esta oportunidade de conversar com a "delícia do mar"! Quando percebermos como tentaremos meter aqui pelo menos os links aos clips de televisão.

10 de agosto de 2008

A ultima mensagem do meu Pai antes de voltar a Portugal

Meu muito querido e adorado Miguel
Tem sido assim que tenho começado todas as cartas que escrevo a cada um dos netos no dia em que é baptizado. Também acabas de ter o teu baptismo. Um outro. O de fogo: depois dos exercícios e treinos, a batalha. Que ganhaste.
Devias ter sido recebido em França com música de Claude-Achille Debussy, se possível com a peça a que ele chamou "Diálogo do Vento e do Mar", e, de regresso a Inglaterra com os acordes de uma das marchas de "Pompa e Circunstância" de Edward Elgar.
Amanhã, em Lisboa, deviam estar no aeroporto todas as chamadas Forças Vivas da Nação, que alem de te darem a medalha de Mérito Desportivo te deveriam dar a Torre e Espada, de Valor, Lealdade e Mérito, a mais alta condecoração Portuguesa, que só se deve dar a um verdadeiro Herói, e, claro, com o Hino Nacional em fundo. Ou, como apaixonado que és por música barroca, talvez uma tocata para cravo, do português Carlos Seixas, e uma tocata, porque é uma das formas musicais que deve ser interpretada por um só músico, já que também foi sozinho que ganhaste a tua batalha.
A dar chutos numa bola, há milhares pelo mundo fora, centenas em Portugal. Mas tu fizeste o que muito poucos fazem no mundo, e, em Portugal, só um:TU.
E só espero que os nossos que estão nas Olimpíadas, saibam de ti e isso os faça redobrar as forças para também ajudarem a tornar Portugal, Maior.
Mas também sei, como teu Pai, que embora me possa apetecer pedir o Mundo para o meu Filho, o meu Filho é suficientemente Grande e Humilde para não querer nada disso e lhe bastar o Amor de Deus e o Carinho e o Amor de todos nós que também o amamos tanto. Haverá medalha maior que a de ter no peito a da "Ordem do Amor"? Sabemos, na nossa família, que não. E todos nós sabemos que foi por Amor que venceste e te venceste.
Sei que duas Associações recebem contributos teus, pelo esforço que fizeste. Obrigado meu Filho por saberes dar, por te saberes dar, e, tal como o poeta Carlos Queiroz pergunta no começo de um dos seus poemas, "Menino, queres ser meu Mestre?", também eu faço a mesma pergunta, disposto como estou a continuar a aprender contigo, como fiel admirador e discípulo.
Continua a ser o Homem que tens sido, porque como alguém disse "primeiro sê Homem e depois sê Anjo".
E como na letra de um um fado, "e se não fosse pecado, queria-te mais do que a Deus".

Mil beijos, meu Querido

Pai

8 de agosto de 2008

Após a Mancha

Ao final de um dia de muito descanso cá estou eu para vos dar o meu relato pessoal do dia 7 de Agosto 2008.

Tudo começou logo cedinho, quando o meu despertador tocou à 1h10m. Já o Manel, o Pedro e a Mariana tinham tratado de deixar tudo arrumado perto da porta antes de se deitarem para que a saída fosse o mais célere possível.

Choveu, e bem, durante os 25 minutos que demorámos de carro para Folkestone. Chegámos ao porto pelas 02h e pouco e já lá estava o Fred, a Observadora, Anne Sloane, e outro Observador que era para seguir com outro nadador (que acabou por não aparecer). O Hugo e o Pedro da TVI chegaram nessa altura também.

O Fred perguntou-nos se queriamos ir nessa noite. AS previsões indicavam que o vento poderia levantar à tarde, mas a Mariana interrompeu-o dizendo que por essa altura esperávamos estar despachados. A verdade é que as previsões na Mancha nunca são muito fiáveis, mesmo a uma distância só de meio dia. Tinhamos de fazer uma decisão e tinhamos de viver com a decisão que fizessemos.

Decidimos ir. Entrámos todos para o barco e quando chegámos perto da praia de Samphire Hoe o Fred fez sinal para eu começar com os preparativos. Todos estavam animados e bem dispostos quando atirei-me à agua e nadei os 100m para a praia (regra imprescíndivel do Canal da Mancha é começar em terra e acabar em terra), fiquei uns minutos de costas para o barco, rezei uma Avé Maria, dei o sinal de início de prova e atirei-me ao mar, ainda os relampagos da tempestade iluminavam esporadicamente as falésias claras de Dover. Eram 03h58m. Noite cerrada.


Às 04.45 tive o meu primeiro abastecimento e já se notavam abertas de céu mais claro entre as nuvens. Na próxima paragem, 30m mais tarde, já era dia e pude "despir" os light sticks que levava atados à cintura.

Eram cerca das 8h00 quando numa paragem me disseram que tínhamos ultrapassado outro nadador e que um terceiro se avistava um pouco mais ao largo. Vim a saber mais tarde que um destes acabou por desistir, o outro ainda nadava quando nós voltámos para Inglaterra mas não sei se terá completado a prova - estavam ambos com pilotos da outra associação.

A certa altura enjoei bastante e por alguma razão não conseguia sequer pensar nas barras energéticas que normalmente utilizo para "descansar" do gel. Acabei por me alimentar sempre à base do gel, com água ou goldrink (bebida isotónica), chá e ocasionalmente banana e frutos secos.

A tempestade desapareceu com a luz do dia. O céu encobria de vez em quando e caía uma chuvinha, mas por volta das 9h da manhã caiu uma autêntica carga de água. Ficou tal maneira reduzida a visibilidade que temi que o fred me quisesse tirar da água. Felizmente este velho lobo do mar conhece tão bem o temperamento volátil da Mancha que isso não o assustou.

Várias vezes cruzei-me com barcos que me faziam sentir fisicamente muito pequeno embora aumentassem o sentido da grandeza deste desafio. Os ferries passavam a mil à hora, mais lento mas mais bonito foi o Navio Escola Holandês que passou a poucas dezenas de metros. De todos estes só tive de dar passagem a um último no final do segundo corredor de tráfego, mais perto de França, um cargueiro "roll on-roll off" que parecia uma torre de prédios flutuante! Meteu respeito!


A chegada a França, frustrante porque só consegui ver terra na última hora do trajecto, foi emocionante. A corrente da maré a vazar puxava-me para sul e tive de redobrar os esforços para certificar que mantinha o rumo e não falhava o Cap Gris Nez, senão teria de nadar pelo menos mais uma hora até conseguir por o pé em terra.


Os golfinhos (mais tarde identificados como Harbour Porpoises) não os vi mas percebi pela a excitação a bordo que algo fora do normal estava a acontecer. A Mariana depois escreveu no quadro o recado e fiquei muito contente por sentir que até aqui tinham aparecido, reforçando o meu sentido de dever como Embaixador do Ano do Golfinho, de divulgar a importância da conservação e protecção destas maravilhosas criaturas.

O "Samallen" acabou por ficar a cerca de 500m da costa Francesa, o Fred e o Pedro (cameraman da TVI) acompanharam-me nas últimas braçadas a terra num bote a remos, mas mesmo assim a corrente impediu-os de se aproximarem muito.

Não existem palavras para descrever a emoção que foi sentir aquelas rochas debaixo dos meus pés! Levantei-me mas ainda tinha água pela cintura. Trepei para um segundo calhau e entre adrenalina e frio nem senti os cortes na perna e palma da mão. Consegui. Cheguei.

Agora tinha de voltar. Mais um mergulho, mais umas braçadas. O Fred parecia tão atrapalhado com a corrente no bote que acabei por voltar a nado para o "Samallen". Ao chegar perto icei a bandeira que esvoaçava no vento que entretanto tinha levantado e subi para o barco, para os braços da minha equipa.

A volta, já todos sabem, foi demorada devido a uma avaria sofrida logo no início da minha prova. Não foi a viagem de barco mais agradavel, entre enjoos e frio ao fim do dia, nem a chegada a Folkestone foi a ideal (a maré estava a vazar de tal forma que nem conseguimos chegar às escadas do porto no bote e tivemos de descalçar e ir a pé naquele lodo nojento!). Mas não interessa. Foi a minha chegada, e foi assim.