Meu querido e adorado Miguel
Desde as cartas que te escrevi quando atravessaste a nadar o Canal da Mancha, e de entre os 85 que conseguiram chegar ao fim, tu fizeste o melhor tempo do Mundo de 2008, que não voltava às epistolas para te dizer quanto estou cheio de orgulho ao teu lado. Cá em casa, onde a Mãe e os Manos rezam por ti, porque aí, ao teu lado, levas a Mariana, como se fosse a bela Helena, princesa do reino de Tarsis, que era aí onde estás, até chegarem os Fenícios.
Como aí campearam Vândalos e Suevos, também a essas terras se chamou Vandaluzia, antes da Andaluzia de hoje.
Sendo essa uma das travessias míticas, é, no entanto, para mim muito mais carregada de simbologia do que a da Mancha, porque aí, onde eram as Colunas de Melqart, e depois de Hércules, também um outro homem teve um sonho: o de atravessar esse Estreito, com o seu exército de gomeras, para conquistar a Ibéria aos cristãos e a entregar ao Islão. Chamou-se Tarik ben Zeiad, e por causa dele mais uma vez o nome desse estreito mudou, para Geb Al Tarik, donde Gibraltar. Foi em 711, há 1300 anos (curioso! 1+3=4, o número dos netos que me deste) e acabou por ser derrotada pelo exército cristão de Plágio, em Covadonga, corria o ano de 718. Se somarmos 7+11 temos que o número 18 não lhe trouxe grande fortuna. Mas também em Covadonga se conta uma história de amor: a de Eurico, o Presbítero, e Hermengarda.
E é importante que o amor esteja por todo o lado, em todos os tempos, de todas as formas. Não era Sto. Agostinho que dizia que "em tudo devia haver amor, e onde houvesse perca, que houvesse amor de perca" ?
E tu vais a nadar, mesmo com essa dor nas costas, não para conquistares terras, nem para bradares com as duas mãos o teu franquisque, mas para com os teus braços conquistares águas, e ondas, e ventos, Nassrani que és a levar contigo o nosso velho grito de "por Santiago".
Deixas para trás essa costa que desde Portugal se chama Al-Gharb, a caminho da outra costa que se chama Al-Moghrab.
E é com amor que sei que tu vais vencer mais essa prova que a ti mesmo propuseste. Gostas, como eu, de não teres limites nem fronteiras, mas apenas o sonho e o amor, de quem também Sto. Agostinho dizia "o limite do amor, ser o amor sem limite".
Vai, meu querido Filho, carregado de História e de histórias para depois contares aos teus Filhos e aos teus Netos, para que neles te continues, nessa força que tens para vencer as ondas da vida, as marés e os ventos que alisam as areias onde pululam, como as pulgas, os pequeninos de espírito, os invejosos que te traem, os incapazes de compreender o Amor. O nosso Amor.
Até amanhã, meu querido Filho, e que Deus te ajude.
Mais um beijo do tamanho da aventura.
Pai