Meu querido e adorado Miguel
Escrevo-te sempre uma carta quando das tuas maiores aventuras. E esta aventura não só é grande como diferente, completamente diferente das outras. Das Aguas Abertas, passaste para os espaços abertos do deserto, que no entanto também já foi mar. Regresso às origens? Talvez! Tantas vezes regressamos às origens, tantas vezes nos esforçamos por ser originais, meu Filho adorado! Resta-me dizer-te com Verdi: "va pensiero, sull´ali dorate".
Lisboa, Madrid, Casablanca, Ouarzazate e depois esse lugar onde instaleram o acampamento, para dele partires amanhã para os 500 quilómetros de deserto em bicicleta.
Também outros portugueses, alguns mesmo teus antepassados, noutros tempos, há muito tempo, se aventuraram pelas areias de Marrocos, e ouviram à noite, e por causa das enormes amplitudes térmicas, o típico grito das pedrs a fenderem-se e a esboroarem-se, como o meu coração tantas vezes, e que agora, mais uma vez te ama longe do meu peito, porque o levaste contigo, e contigo ficará a dar-te força e alento e te amparará nas quedas inevitáveis que os trilhos pedregosos do deserto te causarão. Mas depois voltarás ao mar e poderás de novo gritar como os soldados de Xenofonte: Thalassa! Thalassa!
Vais para essa aventura com mais quatro portugueses, como podes e com o que podes, fazendo-me lembrar o quarteto que Olivier Messiaen compôs no campo de concentração em 1941, apenas com os quatro instrumentos que tinha e podia usar, e que devias ter levado contigo para ouvires e melhor passares o tempo. Porque será aí, que embora com falta de tempo, terás 5 dias para seres o próprio tempo a passar por ti, e fazeres dele apenas duração.
O tempo que obsessionou Bergson e Proust, mas que tinha já feito pensar Platão e Averróis, ou os teólogos como S. Tomás e Sto. Agostinho, o que se converteu noutras areias do mesmo deserto, mas mais abaixo, na Tunísia, por onde também andaste o ano passado. Porque o Tempo leva a Deus, e foi no deserto que Deus se manifestou aos homens.
Cada ser humano tem uma estrutura mental influenciada pela sua própria cultura. Um poeta não olhará para o mundo como um músico, muito menos como o jurista que tu és. Mas tens tudo contigo: a poesia, a música e essa "vontade que te ata ao leme", de justamente levares até ao fim o que te propuseste fazer.
Para o olhar miúpe de quem nos governa neste mundo, que não te vê nem aos outros que como tu fazem coisas únicas e que te fazem seres diferente, que enfim, te fazem seres tu próprio, só a inveja, última palavra de "Os Lusíadas", lhes pode restar. Se é que terão alguma coisa de onde se possa ir buscar um resto. Nunca aí chegarão porque teriam um medo pânico de naufragar.
Tanbém podias ter levado contigo, para ouvires pelo caminho, música como "Mozart no Egipto", especialmente o concerto nº 23 para oud e piano, que no entanto um amigo meu prefere ouvir tocado pela Maria João Pires. Mas aí nessas paragens a interpretação com instrumentos típicos dessas culturas parece-me mais a propósito.
E voltando a Messiaen, conto-te que ele teve um discípulo, Xenaquis, que buscou a sua música no cálculo de probabilidades, e tu, tal como ele baseaste a tua força de vontade, a tua perseverança e resistência à dor e ao cansaço, calculando as probabilidades de, sendo um homem do mar, aí no deserto puderes calcular com certeza que nele nunca poderás naufragar.
Não vais ter golfinhos a acompanharem-te, meu querido, mas camelos, animais que apesar de tudo te tens vindo a habituar a ver, rodeado como estás a todo o momento de uma imensa e desinteressante cáfila que não te conhece nem reconhece.
Mas todos nós estamos contigo, a Mãe, os Manos, a tua Mariana e os teus quatro Filhos e só te peço é que nunca partas o meu coração que contigo para aí levaste, mas o uses sempre para te amparar a queda se por acaso algumas vezes caíres nessas veredas pedregosas. É frágil mas é por demais macio para que te possas maguar.
Teu Pai que te adora e te beija com a imensidão desse deserto.



