Meu querido e adorado Miguel
Todos temos os nossos heróis, escultores, músicos, místicos, pintores, cabos de guerra e almas livres que só na liberdade de ser e de estar, se afirmam. Brancusi, Bach, Francisco de Xavier, Caravaggio ou Albuquerque, são alguns dos grandes que vivem, ainda, no panteão dos meus deuses. Mas tu, com esta titânica aventura, és cada vez mais o Hércules nos seus trabalhos, a vencer o Leão de Nemeia ou a Hidra de Lerna, num sortilégio sem tempo e sem medida.
Tens trinta e cinco anos, em que trinta e três, tantos quanto os da Paixão, tens vivido na água, doce ou salgada, ou doce e salgada como a água do ventre de tua Mãe. Mas agora o deserto, esse lugar mítico e místico do encontro com Deus, e onde outrora também houve mar, e houve Deus, na sarça ardente, nas fugas, nas tentações, no maná a brotar da rocha.
E tu lutas por conseguir chegar à meta dos teus sentidos, para experimentar os teus limites, sabendo querer o que queres mesmo quando não podes querer quanto queres, porque não há limites para a vontade, só o há para o desejo e tu não desejas, queres, pois tens a ideia muito clara de que esta vida é demasiado curta para ser pequena. Como diz o adágio popular, Deus manda lutar, não manda vencer. E para além da luta que estás a travar com o deserto estás a vencer, a vencer-te, herói do meu contentamento.
Sei que é com dor que estás a tentar passar esse Bojador, que penso ser de facto um Cabo da Boa Esperança, sempre com essa tua vontade "que te ata ao leme", da vida, da aventura, do sonho de te seres para além da dor, e de ires até "onde só vai quem não tem medo de naufragar".
Não sei que beijo hei-de inventar, para te dar, galeão do meu espanto, ternura do meu olhar, Miguel meu Filho, minha força sem quebranto.
Há anos que procuras o teu Preste João, príncipe, rei, imperador das aventuras de ti, Mestre dessa Ars Magna que é o teu olhar doce e terno, quando nos olhamos e nos sentimos, quando raiados pelo sangue da conquista vais gritando como Xavier, mais! mais! mais! enquanto eu, lembrando-me dos gregos te grito, évoé! Miguel, évoé!
Nada se faz sem paixão, meu querido, seja ela composta por Bach ou por ti, esculpida por Brancusi ou por ti, pintada por Caravaggio ou por ti, escrita pelo desassossego de Pessoa ou por ti. Que importa, se te dou beijos ou olhares, se o Deus da minha finitude me corre nas veias e te incita a acreditar que te amo, a Ti, aos Manos, à Mãe que vos deu ao Mundo, aos Netos que me vão dando e me fazem pensar que a verdade são vocês todos, e não a que dizem estar no fundo de um poço sem fundo.
E abro as veias para deixar correr para ti todo este Amor que te tenho.
Pai.
PS: Parabéns para ti e para a Mariana pelos três anos do Vasquinho, hoje, dia sete, o que na numerologia pitagórica é o número da perfeição. No domingo lanchamos todos nesta casa que é de todos.