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10 de maio de 2010

Carta do meu pai. Só agora consegui publicar aqui no blogue

Meu querido e adorado Miguel

Todos temos os nossos heróis, escultores, músicos, místicos, pintores, cabos de guerra e almas livres que só na liberdade de ser e de estar, se afirmam. Brancusi, Bach, Francisco de Xavier, Caravaggio ou Albuquerque, são alguns dos grandes que vivem, ainda, no panteão dos meus deuses. Mas tu, com esta titânica aventura, és cada vez mais o Hércules nos seus trabalhos, a vencer o Leão de Nemeia ou a Hidra de Lerna, num sortilégio sem tempo e sem medida.
Tens trinta e cinco anos, em que trinta e três, tantos quanto os da Paixão, tens vivido na água, doce ou salgada, ou doce e salgada como a água do ventre de tua Mãe. Mas agora o deserto, esse lugar mítico e místico do encontro com Deus, e onde outrora também houve mar, e houve Deus, na sarça ardente, nas fugas, nas tentações, no maná a brotar da rocha.
E tu lutas por conseguir chegar à meta dos teus sentidos, para experimentar os teus limites, sabendo querer o que queres mesmo quando não podes querer quanto queres, porque não há limites para a vontade, só o há para o desejo e tu não desejas, queres, pois tens a ideia muito clara de que esta vida é demasiado curta para ser pequena. Como diz o adágio popular, Deus manda lutar, não manda vencer. E para além da luta que estás a travar com o deserto estás a vencer, a vencer-te, herói do meu contentamento.
Sei que é com dor que estás a tentar passar esse Bojador, que penso ser de facto um Cabo da Boa Esperança, sempre com essa tua vontade "que te ata ao leme", da vida, da aventura, do sonho de te seres para além da dor, e de ires até "onde só vai quem não tem medo de naufragar".
Não sei que beijo hei-de inventar, para te dar, galeão do meu espanto, ternura do meu olhar, Miguel meu Filho, minha força sem quebranto.
Há anos que procuras o teu Preste João, príncipe, rei, imperador das aventuras de ti, Mestre dessa Ars Magna que é o teu olhar doce e terno, quando nos olhamos e nos sentimos, quando raiados pelo sangue da conquista vais gritando como Xavier, mais! mais! mais! enquanto eu, lembrando-me dos gregos te grito, évoé! Miguel, évoé!
Nada se faz sem paixão, meu querido, seja ela composta por Bach ou por ti, esculpida por Brancusi ou por ti, pintada por Caravaggio ou por ti, escrita pelo desassossego de Pessoa ou por ti. Que importa, se te dou beijos ou olhares, se o Deus da minha finitude me corre nas veias e te incita a acreditar que te amo, a Ti, aos Manos, à Mãe que vos deu ao Mundo, aos Netos que me vão dando e me fazem pensar que a verdade são vocês todos, e não a que dizem estar no fundo de um poço sem fundo.
E abro as veias para deixar correr para ti todo este Amor que te tenho.
Pai.

PS: Parabéns para ti e para a Mariana pelos três anos do Vasquinho, hoje, dia sete, o que na numerologia pitagórica é o número da perfeição. No domingo lanchamos todos nesta casa que é de todos.

3 de maio de 2010

Meu querido e adorado Miguel

Meu querido e adorado Miguel

Escrevo-te sempre uma carta quando das tuas maiores aventuras. E esta aventura não só é grande como diferente, completamente diferente das outras. Das Aguas Abertas, passaste para os espaços abertos do deserto, que no entanto também já foi mar. Regresso às origens? Talvez! Tantas vezes regressamos às origens, tantas vezes nos esforçamos por ser originais, meu Filho adorado! Resta-me dizer-te com Verdi: "va pensiero, sull´ali dorate".
Lisboa, Madrid, Casablanca, Ouarzazate e depois esse lugar onde instaleram o acampamento, para dele partires amanhã para os 500 quilómetros de deserto em bicicleta.
Também outros portugueses, alguns mesmo teus antepassados, noutros tempos, há muito tempo, se aventuraram pelas areias de Marrocos, e ouviram à noite, e por causa das enormes amplitudes térmicas, o típico grito das pedrs a fenderem-se e a esboroarem-se, como o meu coração tantas vezes, e que agora, mais uma vez te ama longe do meu peito, porque o levaste contigo, e contigo ficará a dar-te força e alento e te amparará nas quedas inevitáveis que os trilhos pedregosos do deserto te causarão. Mas depois voltarás ao mar e poderás de novo gritar como os soldados de Xenofonte: Thalassa! Thalassa!
Vais para essa aventura com mais quatro portugueses, como podes e com o que podes, fazendo-me lembrar o quarteto que Olivier Messiaen compôs no campo de concentração em 1941, apenas com os quatro instrumentos que tinha e podia usar, e que devias ter levado contigo para ouvires e melhor passares o tempo. Porque será aí, que embora com falta de tempo, terás 5 dias para seres o próprio tempo a passar por ti, e fazeres dele apenas duração.
O tempo que obsessionou Bergson e Proust, mas que tinha já feito pensar Platão e Averróis, ou os teólogos como S. Tomás e Sto. Agostinho, o que se converteu noutras areias do mesmo deserto, mas mais abaixo, na Tunísia, por onde também andaste o ano passado. Porque o Tempo leva a Deus, e foi no deserto que Deus se manifestou aos homens.
Cada ser humano tem uma estrutura mental influenciada pela sua própria cultura. Um poeta não olhará para o mundo como um músico, muito menos como o jurista que tu és. Mas tens tudo contigo: a poesia, a música e essa "vontade que te ata ao leme", de justamente levares até ao fim o que te propuseste fazer.
Para o olhar miúpe de quem nos governa neste mundo, que não te vê nem aos outros que como tu fazem coisas únicas e que te fazem seres diferente, que enfim, te fazem seres tu próprio, só a inveja, última palavra de "Os Lusíadas", lhes pode restar. Se é que terão alguma coisa de onde se possa ir buscar um resto. Nunca aí chegarão porque teriam um medo pânico de naufragar.
Tanbém podias ter levado contigo, para ouvires pelo caminho, música como "Mozart no Egipto", especialmente o concerto nº 23 para oud e piano, que no entanto um amigo meu prefere ouvir tocado pela Maria João Pires. Mas aí nessas paragens a interpretação com instrumentos típicos dessas culturas parece-me mais a propósito.
E voltando a Messiaen, conto-te que ele teve um discípulo, Xenaquis, que buscou a sua música no cálculo de probabilidades, e tu, tal como ele baseaste a tua força de vontade, a tua perseverança e resistência à dor e ao cansaço, calculando as probabilidades de, sendo um homem do mar, aí no deserto puderes calcular com certeza que nele nunca poderás naufragar.
Não vais ter golfinhos a acompanharem-te, meu querido, mas camelos, animais que apesar de tudo te tens vindo a habituar a ver, rodeado como estás a todo o momento de uma imensa e desinteressante cáfila que não te conhece nem reconhece.
Mas todos nós estamos contigo, a Mãe, os Manos, a tua Mariana e os teus quatro Filhos e só te peço é que nunca partas o meu coração que contigo para aí levaste, mas o uses sempre para te amparar a queda se por acaso algumas vezes caíres nessas veredas pedregosas. É frágil mas é por demais macio para que te possas maguar.
Teu Pai que te adora e te beija com a imensidão desse deserto.